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Aquecimento gera empregos
Com boom imobiliário, setor busca profissionais qualificados para diversas funções
O acelerado ritmo de construções, desencadeado pelo volume recorde de recursos para financiamento imobiliário, deve ajudar a amenizar, a curto prazo, um dos mais graves problemas brasileiros: o desemprego. Além da mão-de-obra temporária contratada para erguer os novos empreendimentos, especialistas do setor garantem que, nos próximos anos, a oferta de empregos formais nos condomínios e imobiliárias crescerá exponencialmente em todo o país.
De acordo com o diretor de condomínios da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi), Rogério Quintanilha, quem quiser aproveitar a onda de empregos que está por vir, deve buscar qualificação.
- Quando as incorporadoras entregarem os imóveis às imobiliárias, milhares de novas vagas serão criadas, de zeladores a gerentes de condomínios - prevê Quintanilha. - Mas o mercado hoje requer profissional' com boa formação e habilidade para lidar com as pessoas.
Quintanilha explica que o perfil dos funcionários requisitados pelas administradoras de imóveis mudou muito nos últimos anos. Com o desenvolvimento do setor e o crescente aumento de responsabilidades legais, trabalhistas e tributárias atribuídas aos condomínios, as empresas começaram a substituir os técnicos em administração por profissionais com diploma de curso superior para atuarem como mediadores na relação com síndicos e moradores.
- O mercado procura profissionais com postura empresarial, pró-ativos. E não os burocratas que se escondiam atrás de mesas nas imobiliárias - diz Quintanilha.
A profissão de gerente de condomínios, uma espécie de consultor que auxilia os síndicos a identificar e solucionar problemas nos prédios, é uma das principais promessas de geração de empregos. Para se habilitar ao cargo, que garante uma remuneração mensal de até R$ 5 mil, é preciso ter diploma de curso superior em administração, direito ou economia e bom relacionamento interpessoal.
Algumas administradoras admitem profissionais com diploma de nível médio, desde que possam comprovar experiência de atuação em condomínios.
O gerente de condomínios da BCF administradora de bens, António Aloísio Meireles, chegou ao cargo depois de trabalhar, nas últimas duas décadas, no departamento de finanças e atendimento em diversas imobiliárias.
- Para garantir meu espaço, tive que conciliar conhecimento prático com a teoria da administração de condomínios - ensina. - Acabo de concluir um curso de gestão, e agora estou diplomado em consultoria interna de condomínios. Hoje, somos apenas 35 consultores no Rio e o mercado para nossa área tende a crescer muito nos próximos anos.
Além do incremento do quadro de funcionários nas administradoras, o boom imobiliário vai gerar milhares de empregos também dentro dos novos condomínios. Atentas ao aumento da demanda por serviços, as construtoras estão incluindo em seus projetos programas para contratação de pessoal das mais diversas áreas.
A incorporadora Carvalho Hosken e a construtora RJZ Cyrela desenvolveram um programa de mão-de-obra para o empreendimento Iles de La Península, que será lançado na Barra da Tijuca. Inclui, além de contratação de empregados que prestam serviços básicos - como seguranças, porteiros, zeladores e jardineiros -prestadores de serviços de áreas até então inusitadas para trabalhar em um condomínio, como sapateiros, costureiras, professores de yoga e piano, e walk-dog (quem passeia com cães).
Porteiro dos sonhos: cordialidade das recepcionistas e atenção dos seguranças
Apesar da ampliação da oferta, a cada dia há menos espaço nos condomínios para profissionais sem qualificação. Nem mesmo a mais tradional das profissões dos edifícios, a de porteiro, está livre da pressão do mercado.
- Já não há espaço para o "porteiro Zé", aquele profissional quebra-galho, sem qualquer noção de segurança nem de atendimento aos moradores - diz o vice-presidente do Secovi Rio (Sindicato da Habitação), Ronaldo Coelho. - Quem quiser manter seu emprego ou ser contratado para as novas oportunidades que vão surgir, tem que buscar especialização.
Ronaldo Coelho explica que a profissão de porteiro está passando por uma brusca transformação. Isso porque a violência nas grandes cidades e o crescimento da demanda por prestação de serviços nos condomínios geram a necessidade de que o cargo seja ocupado por profissionais com um perfil semelhante ao das recepcionistas, porém com maior preocupação com técnicas de segurança.
- Antes as administradoras contratavam o operário que mais se destacava na obra, já que ele conhecia a estrutura da edificação e podia identificar problemas elétricos e de infiltração, por exemplo - lembra. - Hoje, o mais importante é saber tratar os moradores e conhecer as técnicas que mantêm o condomínio livre da ação de ladrões.
Quem quiser manter sua ocupação ou ser contratado para novas vagas tem que se especializar
O síndico Roger Mann, que administra seis condomínios no Rio, é um dos precursores da implementação do modelo empresarial nas portarias. Depois de atuar como administrador de fazendas e lojas em São Paulo, Roger resolveu ousar e adaptar o modelo de atendimento que aprendeu no campo e na cidade grande para a realidade dos prédios.
- Assim que assumi a gestão do primeiro condomínio fiquei horrorizado com a falta de educação e de conhecimento dos porteiros sobre o trabalho que desempenhavam -conta o síndico. - Então pensei: por que não ensinar a eles as técnicas de atendimento ao cliente, que são praxe no ambiente corporativo?
O primeiro passo foi reunir a equipe e transmitir noções de cortesia, receptividade e apresentação pessoal, a exemplo do que fazia na capital paulista com vendedores e gerentes. Em seguida, estimular os empregados a participarem de cursos de segurança da Polícia Militar, e de capacitação profissional, promovidos pelos sindicatos e associações do setor. Feito isso, o síndico profissional estabeleceu um plano de carreira para os porteiro, além de um sistema de premiações para os funcionários que se destacassem. O toque final foi dado com um salário maior que o oferecido pelo mercado, além de plano de saúde e vale-refeição, e a substituição do uniforme convencional por temo e gravata.
- Recebo inúmeros pedidos de profissionais, inclusive com curso superior, loucos por uma vaga de porteiro - garante Roger. - E ainda há fila de espera para comprar ou locar um imóvel nos condomínios que administro, pois todo mundo quer morar em prédios onde trabalhem profissionais realmente qualificados.
Fonte: Jornal do Brasil, Luciana Gondim.
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